Introdução às Plantas Medicinais Brasileiras
Plantas nativas e espécies cultivadas no Brasil fazem parte de práticas tradicionais de cuidado. A tradição, porém, não comprova eficácia clínica nem garante segurança.
O Formulário de Fitoterápicos da ANVISA reúne preparações específicas, indicações e advertências. O Memento Fitoterápico descreve estudos não clínicos e clínicos. Esses documentos não tornam equivalentes um chá caseiro, um extrato padronizado e um medicamento.
Este guia consulta a 2ª edição (2021) do Formulário e a 1ª edição (2016) do Memento. A página da ANVISA informa que a 3ª edição, aprovada pela RDC nº 1.024/2026, entrou em vigor em 1º de julho de 2026. A edição de 2021 é uma fonte histórica, não uma confirmação das instruções da edição vigente. As advertências abaixo resumem as fontes citadas; não substituem a bula vigente nem confirmam a regularização atual de um produto.
Neste guia, separamos usos tradicionais, resultados de laboratório e evidências clínicas. Não substitua, interrompa ou altere um tratamento prescrito por causa de uma planta medicinal.
A RENISUS e a Fitoterapia no SUS
A Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS), publicada pelo Ministério da Saúde em 2009, reúne 71 itens vegetais. Alguns itens incluem mais de uma espécie. A lista orienta pesquisas e o desenvolvimento de possíveis produtos para o SUS.
Entre os itens estão o guaco, a espinheira-santa, o boldo-brasileiro, a camomila e a Lippia alba. Estar na RENISUS não comprova eficácia, segurança para automedicação ou disponibilidade de um produto no SUS.
As referências da Farmacopeia Brasileira ajudam a definir identidade, qualidade e preparações. A avaliação deve considerar a espécie, a parte utilizada, a formulação e as restrições de cada produto.
As Principais Plantas Medicinais do Brasil
1. Boldo (Peumus boldus e Plectranthus barbatus)
O boldo-do-chile (Peumus boldus) e o boldo-brasileiro (Plectranthus barbatus) são espécies diferentes. Evidência: uso tradicional. A monografia da EMA para Peumus boldus descreve esse nível de evidência para queixas digestivas leves. A edição de 2021 do Formulário da ANVISA descrevia preparações das duas espécies para sintomas dispépticos (pp. 152–153 e 163–165). Isso não comprova proteção do fígado nem autoriza o uso para doenças hepáticas.
A edição de 2021 não indicava essas preparações para gestantes, lactantes ou menores de 18 anos. Peumus boldus é contraindicado em doenças hepáticas, cálculos e obstrução das vias biliares. Para Plectranthus barbatus, a edição de 2021 do Formulário também contraindicava o uso em hipertensos, pessoas com hepatite ou doença renal policística. A edição de 2021 do Formulário advertia contra combinar Plectranthus barbatus com anti-hipertensivos, digoxina e outros medicamentos; peça avaliação profissional.
2. Camomila (Matricaria chamomilla)
Evidência: uso tradicional e ensaios clínicos limitados, conforme a preparação. A EMA descreve o uso tradicional das flores de camomila para queixas digestivas leves, como gases e espasmos. O Memento da ANVISA (pp. 63–64) relata um ensaio com extrato padronizado que sugere possível efeito sobre sintomas de ansiedade. Esse resultado não comprova o mesmo efeito para qualquer chá.
A camomila é contraindicada para pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae. Há relatos de reações alérgicas graves. O Memento contraindica o uso na gestação e descreve interações com varfarina. Na lactação e na infância, as restrições dependem da preparação e da via; não ofereça chá medicinal a bebês sem orientação profissional.
3. Erva-Cidreira (Lippia alba) e Melissa (Melissa officinalis)
O nome erva-cidreira pode designar Lippia alba ou Melissa officinalis; elas não são intercambiáveis. Evidência: uso tradicional. A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 117–118) descrevia Lippia alba como auxiliar em ansiedade leve, espasmos e queixas digestivas. A EMA classifica o uso de Melissa officinalis para estresse leve, auxílio ao sono e queixas digestivas leves como tradicional, não como eficácia clínica estabelecida.
A edição de 2021 do Formulário contraindicava Lippia alba na gestação, lactação e em menores de 18 anos; recomendava cautela em pessoas com pressão baixa. Também advertia sobre sedativos, paracetamol, gastrite e úlcera gastroduodenal. Para melissa (pp. 128–130), essa edição contraindicava gestação, lactação, menores de 12 anos, hipotireoidismo, glaucoma e hiperplasia benigna da próstata. A melissa pode aumentar o efeito de barbitúricos, como pentobarbital, e comprometer a atenção.
4. Guaco (Mikania glomerata)
Evidência: uso descrito em compêndio, com base em referências tradicionais e farmacológicas. A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 134–135) descrevia preparações de Mikania glomerata para alívio sintomático de afecções das vias aéreas superiores com secreção. Essa indicação não comprova eficácia contra o vírus da gripe nem justifica apresentar guaco como tratamento de bronquite. Não substitua a avaliação médica de tosse persistente ou falta de ar.
A edição de 2021 do Formulário contraindicava essas preparações na gestação, lactação e em menores de 18 anos. Também advertia contra combinações com anticoagulantes, anti-inflamatórios não esteroidais e antibióticos. Uso excessivo ou prolongado pode causar vômito, diarreia e taquicardia.
5. Espinheira-Santa (Maytenus ilicifolia)
Evidência: estudos não clínicos e um ensaio clínico em dispepsia não ulcerosa, descritos no Memento da ANVISA. O documento (pp. 66–68) cita efeitos sobre lesões gástricas em modelos animais. Também relata um ensaio de fase II com extrato das folhas em pessoas com queixas digestivas sem úlcera. Esses resultados não comprovam eficácia clínica para gastrite ou úlcera gástrica, nem permitem substituir o tratamento prescrito.
A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 125–127) descrevia uso antidispéptico e antiácido, mas contraindicava as preparações na gestação, lactação e em menores de 12 anos. Há indícios de redução do leite materno. Segundo o Memento, as interações clínicas não foram estudadas adequadamente. Ele alerta para possíveis interações com imunossupressores e medicamentos que podem causar dano hepático. Não use em crianças sem avaliação específica.
6. Arnica Brasileira (Solidago chilensis)
Solidago chilensis e a arnica europeia (Arnica montana) são plantas diferentes. Evidência: revisão sistemática, com qualidade muito baixa para o uso tópico estudado. A revisão Cochrane de 2014 encontrou um ensaio com 20 adultos sobre gel de arnica-brasileira para dor lombar. Isso não comprova eficácia anti-inflamatória geral para contusões, hematomas ou dores musculares, nem valida preparações caseiras.
O ensaio de arnica-brasileira avalia aplicação na pele, não ingestão; este guia não recomenda uso oral. Esse ensaio não estabelece segurança para gestantes, lactantes ou crianças, nem para combinações com medicamentos. Nesses casos, não use por automedicação. Não use um produto que já causou alergia.
7. Babosa (Aloe vera)
A babosa aparece em cosméticos e preparações tópicas, mas uso na pele não significa segurança para ingestão. Gel, folha inteira, látex, suco e cápsula não são equivalentes. Este guia não recomenda ingerir babosa caseira nem usar a planta para tratar uma doença.
No Informe Técnico nº 47/2011, a ANVISA relata que as evidências avaliadas não comprovaram a segurança da babosa como alimento. O documento não autoriza o consumo de sucos: exige avaliação de segurança antes da comercialização. Também reúne relatos de efeitos adversos gastrointestinais e de lesão hepática associados a produtos orais. Relatos de caso indicam riscos, mas não permitem calcular sua frequência.
Gestantes, lactantes, bebês, crianças e pessoas com doença hepática ou renal devem evitar a automedicação. A segurança das combinações com medicamentos não pode ser presumida; converse com médico ou farmacêutico e não substitua o tratamento prescrito. Veja as diferenças entre apresentações no guia de babosa e os cuidados com interações entre plantas e medicamentos.
8. Maracujá (Passiflora incarnata)
Passiflora incarnata não equivale a qualquer espécie de maracujá nem ao suco do fruto. Evidência: uso tradicional; estudos clínicos pequenos e com limitações. A EMA descreve uso tradicional para estresse leve e auxílio ao sono. Seu resumo da avaliação informa que os estudos não permitem conclusões firmes. Não há base nessa avaliação para afirmar equivalência aos benzodiazepínicos ou menor risco de efeitos adversos.
O Memento da ANVISA (pp. 71–72) contraindica o uso na gestação e a combinação com sedativos ou outros depressores do sistema nervoso central. Não recomenda o uso na lactação. Há advertências sobre possíveis interações com varfarina e inibidores da monoaminoxidase. Pode causar sonolência; não dirija se isso ocorrer. A EMA não recomenda uso em menores de 12 anos.
9. Unha-de-Gato (Uncaria tomentosa)
Evidência: estudos não clínicos e ensaio clínico limitado com extrato específico. O Memento da ANVISA (pp. 104–105) reúne resultados de laboratório e descreve um ensaio com extrato de Uncaria tomentosa como complemento a medicamentos prescritos para artrite reumatoide. O estudo observou diferenças em sintomas articulares. Isso não demonstra benefício geral para a imunidade nem sustenta o uso para qualquer doença inflamatória crônica.
O Memento contraindica a planta na gestação e lactação e alerta que pacientes que serão submetidos a transplantes não devem usá-la. Também descreve risco de interação com anticoagulantes, como varfarina, e outros medicamentos. Não combine produtos sem avaliação profissional. A descrição de estudos em adultos não estabelece segurança para crianças.
10. Quebra-Pedra (Phyllanthus niruri)
Evidência: revisões de estudos, com limitações. Uma revisão sistemática de 2020 incluiu dois estudos clínicos e encontrou sinais de redução da quantidade e do tamanho dos cálculos. Uma revisão de 2025 reúne estudos em humanos e animais e discute resultados mistos, inclusive como complemento à litotripsia. Esses dados não permitem prometer eliminação de pedras ou prevenção de novos cálculos. Não substitua a avaliação urológica por chá.
A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 154–155) descrevia preparações para aumento do fluxo urinário, não uma garantia de dissolução de cálculos. Essa edição contraindicava gestação, lactação, menores de 18 anos e uso em pessoas com cálculos grandes, pelo risco de obstrução. Advertia sobre combinações com diuréticos, anti-hipertensivos, hipoglicemiantes e insulina, que exigem acompanhamento médico. Uso excessivo pode causar diarreia e pressão baixa.
11. Capim-Limão (Cymbopogon citratus)
O capim-limão também é chamado de capim-santo ou capim-cidreira. Evidência: uso tradicional descrito em compêndio e ensaio clínico com resultado negativo para chá. A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 65–66) descrevia o infuso das folhas como auxiliar em cólicas, ansiedade e insônia leves. Porém, um estudo de 1986 com chá em voluntários não encontrou diferenças em sono ou ansiedade em relação ao placebo. A descrição no compêndio não comprova eficácia analgésica geral nem permite transferir possíveis efeitos do óleo essencial para um chá.
A edição de 2021 do Formulário contraindicava a preparação na gestação, lactação e em menores de 18 anos. Também contraindicava o uso em pessoas com doenças cardíacas, renais, hepáticas ou outras doenças crônicas. Não associe a medicamentos depressores do sistema nervoso central. Doses elevadas podem causar desmaio e sedação.
12. Açafrão-da-Terra (Curcuma longa)
A cúrcuma é usada como tempero, mas esse uso não equivale ao de extratos ou cápsulas. Evidência: uso tradicional para queixas digestivas leves na monografia da EMA. Essa classificação não comprova um efeito anti-inflamatório geral. A edição de 2021 do Formulário da ANVISA (pp. 61–64) diferenciava as indicações conforme a formulação; não se pode transferir resultados de um extrato para qualquer chá ou suplemento.
Para as preparações medicinais citadas, as fontes não recomendam uso na gestação, lactação ou em menores de 18 anos. Há restrições para cálculos, obstrução das vias biliares e doenças hepáticas; a edição de 2021 do Formulário também contraindicava úlcera gastroduodenal. Essa edição advertia sobre altas doses junto a anticoagulantes ou antiplaquetários e sobre possível interação com paracetamol. Procure avaliação antes de combinar produtos.
Como Utilizar Plantas Medicinais com Segurança
Plantas medicinais contêm substâncias que podem causar reações adversas, interações medicamentosas e efeitos tóxicos. Ser natural não elimina esses riscos. O uso tradicional também exige cuidados. As advertências históricas citadas não substituem a avaliação profissional nem a bula vigente.
Identifique a espécie, a parte da planta e a preparação. Informe ao médico ou farmacêutico todos os medicamentos e produtos que utiliza. As restrições variam entre chás, extratos e produtos tópicos. Este guia não fornece doses nem receitas para crianças.
Contraindicações Gerais
Gestantes, lactantes, bebês e crianças não devem receber preparações medicinais por automedicação. A falta de estudos nessas populações não significa segurança. Algumas fontes contraindicam espécies ou preparações mesmo com orientação; confira a restrição específica.
Pessoas com doenças hepáticas, renais ou cardíacas, e quem usa vários medicamentos, precisam de avaliação profissional. Não prolongue o uso por conta própria. Os limites de idade e duração dependem da espécie e do produto, não de uma regra única para todas as plantas.
Referências
- ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição. 2021. Edição histórica, substituída pela 3ª edição em julho de 2026. As páginas indicadas no texto se referem à edição de 2021, não às instruções vigentes.
- ANVISA. Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, 1ª edição. 2016. Camomila (pp. 63–64), espinheira-santa (pp. 66–68), passiflora (pp. 71–72) e unha-de-gato (pp. 104–105).
- ANVISA. Informe Técnico nº 47, de 16 de novembro de 2011: comercialização de Aloe vera (babosa) e avaliação de segurança em alimentos.
- BRASIL. Ministério da Saúde. MS elabora Relação de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. 2009. Inclui a lista RENISUS.
- EMA/HMPC. Monografia de Peumus boldus, folha. Uso tradicional, contraindicações e restrições.
- EMA/HMPC. Monografia de Matricaria recutita, flores. Uso tradicional e advertências; espécie também denominada Matricaria chamomilla.
- EMA/HMPC. Monografia de Melissa officinalis, folha. Uso tradicional e limites dos dados de segurança.
- EMA/HMPC. Passiflora incarnata: resumo da avaliação e monografia das partes aéreas. Uso tradicional e limitações dos estudos clínicos.
- EMA/HMPC. Monografia de Curcuma longa, rizoma. Uso tradicional digestivo e restrições.
- OLTEAN, H. et al. Herbal medicine for low-back pain. Cochrane, 2014. PMID 25536022; texto completo. Ensaio de arnica-brasileira com 20 participantes; qualidade da evidência muito baixa.
- DHAWAN, S.; OLWENY, E. O. Phyllanthus niruri (stone breaker) herbal therapy for kidney stones: revisão sistemática e metanálise. 2020. PubMed, PMID 32333735; resumo. Dois estudos clínicos; evidência limitada.
- IREGUI-PARRA, J. et al. Phyllanthus niruri in the management of nephrolithiasis: revisão sistemática da literatura. 2025. PubMed, PMID 40480426; resumo. Estudos em humanos e animais; resultados e limites do uso complementar.
- LEITE, J. R. et al. Pharmacology of lemongrass (Cymbopogon citratus Stapf). III. Assessment of eventual toxic, hypnotic and anxiolytic effects on humans. 1986. PubMed, PMID 2429120; resumo. Avaliação clínica do chá, sem diferença em sono ou ansiedade em relação ao placebo.